
São Como Arpejos
Sentado ao piano, Richard refletia sobre suas paixões, livros; discos, desenhos; rascunhos e poemas... Seus olhos fecharam-se, numa tentativa vã de maior deleite ao dedilhar um arpejo longo. Uma escala simples, porém bela. Era do tipo que poderia, ao mesmo tempo, impressionar um leigo e causar enjôos num perito. Ele que, a bem da verdade, possuia um pouco dos dois, sentia um misto de prazer e tédio, uma sensação quase inexplicável que o aflingia à cada escala.Começara a tocar algo antigo, porém suave, que o fazia voar até ela.Sem querer, quase que por instinto, ignorou a partitura à sua frente e retornou aos arpejos: cada vez mais longos, e dedilhados delicadamente. Era como um vinho estranho ou uma dessas obras intrigantes, que conseguem ser, ao mesmo tempo, intensas e calmas; amargas e suaves.Deixo-me levar até ela. Agora cada nota descrevia uma mecha de seu cabelo; cada acorde descrevia a forma perfeita de seus seios, o desenho claro de seu colo e o contorno de seu vestido. Ele esculpira no ar o corpo daquela que nunca teve. Desenhara suas formas, seus olhos castanhos e inebriantes, suas mãos pequenas, sua pele clara e macia. Podia senti-la em cada tecla. Pôde fitá-la sentada por sobre o corpo de seu grande piano de cauda, com suas belas pernas cruzadas e um longo vestido negro; possuia os cabelos escuros e caidos sobre seu colo. Era como se cada fio tivesse sido cuidadosamente colocado em sua devida posição para emoldurar-lhe o rosto. Concentrou-se em seus olhos e confessou-lhe:
-São como arpejos...
By- Filipe Fernandes